Desafios da Fortificação Alimentar em Moçambique: Qualidade e Dados em Foco
Moçambique enfrenta desafios na fortificação alimentar, com foco na qualidade dos micronutrientes e na falta de dados para decisões eficazes.

A fortificação de alimentos em Moçambique tem sido uma prioridade nas políticas de saúde pública, especialmente no combate à desnutrição. No entanto, o país ainda enfrenta sérios desafios, particularmente no que diz respeito à qualidade dos micronutrientes adicionados e à utilização de dados para orientar as intervenções. Esta situação foi amplamente discutida durante o "Workshop sobre a Definição de Prioridades em Matéria de Dados Relativos à Fortificação Alimentar em Moçambique", que teve lugar recentemente, reunindo representantes do governo, da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da indústria alimentícia e de parceiros de cooperação.
O encontro surgiu na sequência do "Diálogo Regional Africano sobre Dados para a Ação em Fortificação de Alimentos", que ocorreu em Addis Abeba, na Etiópia, em 2025. O objetivo principal foi fortalecer os mecanismos nacionais de recolha, monitoria e utilização de informações, essenciais para o aprimoramento do Programa Nacional de Fortificação de Alimentos. A Coordenadora Nacional da Fortificação de Alimentos, Eduarda Mungoi, sublinhou que o sucesso deste programa depende não apenas da fortificação em si, mas também da quantidade adequada de vitaminas e minerais a serem adicionados. "Não basta fortificar, é preciso fortificar nos níveis em que a fortificação vai trazer impacto e reduzir as deficiências de micronutrientes na população", enfatizou.
Estudos anteriores indicam que, embora a fortificação esteja em andamento, muitos produtos alimentares, como farinha, óleo, açúcar e sal, apresentam níveis de micronutrientes que não atendem aos parâmetros recomendados. Essa situação limita os efeitos positivos esperados na saúde pública, uma vez que Moçambique enfrenta carências significativas de ferro, vitamina A e ácido fólico, nutrientes essenciais para evitar problemas como anemia e atraso no desenvolvimento infantil. Atualmente, a taxa de cumprimento da fortificação no país varia entre 60% e 70%, mas Mungoi ressalta a necessidade de uma fiscalização mais rigorosa e de um compromisso sério da indústria em seguir as normas estabelecidas.
Contexto
Moçambique é um dos países da África Austral que mais sofre com a desnutrição, afetando particularmente crianças e mulheres em idade reprodutiva. A fortificação de alimentos surge como uma medida estratégica para combater essas carências nutricionais. O país já fortifica cinco alimentos de consumo massivo, um esforço que é considerado superior ao de vários outros países da região. Apesar dos avanços, a complexidade do problema da desnutrição em Moçambique exige intervenções coordenadas e eficazes, que vão além da simples fortificação, incluindo a monitoria contínua e a análise de dados.
Raymond Chikomba, responsável pela Nutrição na Unidade de Desenvolvimento Social e Humano da SADC, destacou a importância de um mecanismo regional para coordenar as políticas de fortificação alimentar, enfatizando que a gestão de dados é uma prioridade crucial. "Precisamos conhecer o problema, quais são as deficiências existentes, quem recolhe os dados e como podem ser utilizados para orientar decisões", afirmou Chikomba. Isso é fundamental, pois, segundo as estimativas, cerca de 34% das crianças na África Austral sofrem de deficiências de micronutrientes, e uma proporção semelhante de mulheres em idade reprodutiva enfrenta anemia.
Impacto
A falta de dados de qualidade e a inadequação na fortificação alimentar têm consequências diretas para a saúde da população. A carência de micronutrientes não apenas compromete o desenvolvimento infantil, mas também afeta a produtividade da força de trabalho e a capacidade das pessoas em contribuir para a economia do país. Além disso, a ineficácia das políticas de nutrição pode perpetuar ciclos de pobreza e desnutrição, uma vez que famílias vulneráveis não conseguem acessar alimentos que atendam às suas necessidades nutricionais.
A representante do UNICEF em Moçambique, Maaike Arts, fez eco a esses desafios, mencionando que, apesar do elevado consumo de alimentos fortificados, a qualidade da fortificação ainda apresenta lacunas significativas. "Os dados disponíveis mostram que o acesso aos alimentos fortificados, por si só, não garante o impacto nutricional desejado", alertou Arts. A ausência de um sistema nacional que centralize informações sobre a fortificação alimentar também dificulta a monitoria e a capacidade de resposta das autoridades. Portanto, dados de qualidade são essenciais para identificar lacunas, direcionar investimentos e medir os resultados das intervenções implementadas.
O que se segue
De acordo com a Secretária de Estado da Indústria, Custódia Paúnde, a fortificação alimentar permanece como uma das estratégias mais custo-efetivas para prevenir a deficiência de micronutrientes em países de baixa renda. Durante o workshop, foi mencionado que Moçambique produziu mais de 13 milhões de toneladas métricas de alimentos fortificados, incluindo farinha de milho, farinha de trigo e sal iodado, o que demonstra a capacidade crescente da indústria nacional para atender às necessidades nutricionais da população e reduzir a dependência de importações.
Para os próximos passos, o governo de Moçambique propõe a adoção de sistemas digitais de gestão de dados que possam melhorar a coordenação entre as instituições nacionais e regionais. Além disso, um apelo foi feito para fortalecer a colaboração entre o Estado, o setor privado, a sociedade civil, a comunidade científica e parceiros de cooperação, com o objetivo de consolidar os avanços já alcançados e reduzir os índices de deficiência de micronutrientes. A continuidade dos esforços para melhorar a qualidade da fortificação alimentar e a utilização de dados na formulação de políticas será crucial para a saúde e o bem-estar da população moçambicana.
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