Desafios e Realidades da Electricidade de Moçambique: Lucros ou Ilusões?
A Electricidade de Moçambique enfrenta desafios na oferta de eletricidade, com lucros dependentes de dividendos. Conheça a situação atual e os próximos passos.

A Electricidade de Moçambique (EDM) anunciou um lucro líquido de cerca de 113 milhões de dólares para o ano de 2025. Entretanto, uma análise mais criteriosa revela que esta cifra é, em grande parte, enganosa. Dos 113 milhões de dólares reportados, aproximadamente 111 milhões provieram de dividendos das empresas nas quais a EDM detém participação, destacando-se a CEZA, responsável pela gestão da parte portuguesa da barragem de Cahora Bassa. Por sua vez, o resultado operacional da empresa, que representa o que a EDM realmente ganha através da compra, transporte e venda de eletricidade, foi apenas cerca de 32 milhões de dólares, resultando numa margem de 3,5% sobre a receita total. Ao excluir os dividendos, a operação básica de fornecimento de eletricidade mal consegue cobrir os seus custos.
Embora os dividendos representem uma vantagem significativa, especialmente quando comparados a outras empresas de energia em África, que muitas vezes enfrentam desafios para garantir rendimentos estáveis, a situação da EDM levanta preocupações sobre o destino desse dinheiro. Ao invés de ser utilizado para financiar a expansão e melhoria da infraestrutura elétrica, os dividendos estão a servir para cobrir lacunas que o negócio principal não consegue suprir, possibilitando assim que a empresa possa anunciar um lucro, mesmo que questionável.
Contexto
Moçambique enfrenta um desafio significativo no que diz respeito ao fornecimento de eletricidade, com a EDM sendo a principal responsável por garantir o acesso à energia para a população. O governo moçambicano estabeleceu a ambiciosa meta de fornecer eletricidade a todos os cidadãos até 2030. O presidente da EDM, Joaquim Ou-chim, mencionou que ainda existem 58 postos administrativos a serem preenchidos; no entanto, esses números apenas refletem a cobertura territorial, sem considerar o acesso real da população à eletricidade.
O governo, através do seu National Energy Compact, elaborado para a Missão 300 do Banco Mundial, projeta que o acesso à eletricidade deverá atingir 60,1% em 2024. Embora a EDM afirme que cerca de 70% da população já tem acesso à eletricidade, esta diferença levanta dúvidas sobre a veracidade dos dados. Para alcançar a meta de 2030, a EDM precisaria realizar cerca de 4,9 milhões de novas ligações, o que equivale a aproximadamente 423 mil ligações por ano na rede elétrica e 435 mil fora dela.
Em 2024, a EDM conseguiu realizar cerca de 412 mil ligações na rede, o que está próximo da taxa anual necessária. Contudo, no que diz respeito às ligações fora da rede, onde se encontram as comunidades mais pobres e dispersas, a empresa apenas conseguiu 140 mil, menos de um terço do ritmo necessário para atender a demanda.
Impacto
A situação atual da EDM tem implicações diretas na vida dos cidadãos moçambicanos. A dependência de dividendos para reportar lucros pode comprometer a capacidade da empresa de investir na melhoria e expansão da rede elétrica, essencial para assegurar que todos os moçambicanos tenham acesso a um serviço básico. A lentidão no crescimento das ligações fora da rede é especialmente preocupante, pois essas áreas frequentemente incluem comunidades rurais que dependem da eletricidade para diversas atividades, desde a iluminação até o funcionamento de pequenos negócios.
A falta de acesso à eletricidade tem efeitos em cadeia na economia local, limitando o desenvolvimento de pequenas e médias empresas e perpetuando ciclos de pobreza. Sem uma abordagem mais eficaz e sustentável para resolver esses desafios, a EDM pode enfrentar dificuldades crescentes, tanto na sua operação diária quanto na sua reputação perante a população e investidores.
O que se segue
A Electricidade de Moçambique deverá enfrentar um cenário desafiador nos próximos anos. A empresa precisa urgentemente de reavaliar a sua estratégia de negócios para garantir que o foco não esteja apenas na geração de lucros a partir de dividendos, mas também na melhoria da eficiência operacional e no aumento do número de novas ligações, tanto na rede como fora dela.
A meta de fornecer eletricidade a todos os cidadãos até 2030 requer um compromisso firme e uma abordagem mais inovadora para superar os obstáculos que a empresa enfrenta. Espera-se que a EDM implemente estratégias que envolvam parcerias públicas e privadas para expandir a sua capacidade de fornecer energia, especialmente nas áreas mais carentes. A realização de investimentos em infraestrutura e a promoção de iniciativas que incentivem a utilização de fontes de energia renováveis podem ser caminhos viáveis para alcançar os objetivos estabelecidos, garantindo uma maior inclusão energética e contribuindo para o desenvolvimento sustentável do país.
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